Se considerada a época da primeira ocupação do seu território, cuja data provável remonta ao ano de 1615, e não a data em que se tornou Vila, 14 de dezembro de 1656, Jundiaí pode seguramente ser considerada uma cidade quatrocentona. São consideráveis anos acumulados de história tanto do seu povo quanto da transformação do seu território. Ao longo desses séculos de história, alguns edifícios permaneceram até os dias atuais, dentre eles, por exemplo, o Solar do Barão de Jundiaí, que é o mais emblemático dentre os edifícios mais antigos, e também as inúmeras residências da época da instalação da sede da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
O conjunto dessas diversas edificações de períodos distintos e de técnicas construtivas distintas, compõe o patrimônio arquitetônico histórico presente na cidade de Jundiaí. Cabe esclarecer que não nos referimos apenas às edificações tombadas pelos órgãos oficiais (como o IPHAN, no âmbito nacional, ou o Condephaat, no âmbito do estado de São Paulo), nem mesmo estamos nos atendo aos parâmetros que tais órgãos estabelecem para dar atenção a uma edificação e à outra não. Por patrimônio, de uma forma mais abrangente, nos referimos às construções que possuem algum determinável valor seja ele construtivo, histórico ou artístico-arquitetônico.
É importante frisar que há considerável heterogeneidade na constituição desse conjunto que compõe o patrimônio, haja vista que, somente em termos das técnicas construtivas, pode-se encontrar desde a taipa de pilão até os mais diversos tipos de alvenaria com uso de tijolos maciços. E vale também frisar que, no mesmo sentido de patrimônio ao qual nos referimos, realidades semelhantes à de Jundiaí são encontradas em inúmeras cidades no seu entorno como, por exemplo, Itu ou Itatiba, e também em inúmeras regiões da federação, constituindo, portanto, um patrimônio arquitetônico histórico nacional.
Apesar das significativas diferenças encontradas entre uma ou outra edificação, o fato de serem pertencentes a um tempo, com características distintas das do tempo presente, confere a elas a necessidade de uma atenção comum. Esse olhar criterioso para as edificações erguidas em tempos passados costuma ser chamado de técnicas retrospectivas. Dentre as inúmeras questões que compõem esse modo de olhar e de proceder, podemos abordar alguns verbos que definem a postura geral que se tem diante de uma dessas edificações, sendo eles: preservar, conservar, restaurar, atualizar e acrescentar.
São mais raras as situações nas quais se encontra a postura de preservar. Entendemos aqui por preservar a decisão de não se estabelecer para uma edificação um uso que ela possa conter, ou ainda se reestabelecer o uso que uma determinada edificação conteve no passado. Além disso, preservar também implica em manter as características físicas da edificação tal e qual são encontradas nos dias atuais. Um exemplo dessa postura é o Memorial da Paz de Hiroshima que é constituído de um remanescente de uma edificação parcialmente destruída pela bomba de Hiroshima e que não abriga nenhum uso, servindo apenas como uma espécie de monumento.
Por outro lado, muito menos raras são as outras formas de se posicionar diante de uma edificação com características de patrimônio. Dentre essas que são mais recorrentes, pode-se decidir por conservar uma determinada edificação, considerando que ela seja passível de abrigar determinado uso, mantendo todas as características por ela adquiridas ao longo do tempo sem qualquer intervenção restauradora, e fazendo uso apenas de medidas de conservação para que se evite alterações no estado físico por ela adquirido junto a um determinado período de tempo. Pode-se optar, também, por restaurar uma edificação, recuperando, por meio da reconstituição histórica da sua identidade original e da reconstituição das técnicas construtivas nela empregadas, seu estado tal como teria sido quando a mesma tivesse sido inaugurada, ou ao menos o mais próximo de tal. Pode-se preferir ainda atualizar uma edificação, operando nela alterações que a atualizem para um determinado uso ou fim, postura essa que geralmente compreende a noção de "retrofit". E pode-se, por fim, desejar acrescentar algum elemento, anexo ou edificação ao edifício previamente existente e fazê-lo com os mais diversos propósitos. Caso a edificação permita, por sua complexidade, por exemplo, também é possível combinar algumas dessas posturas para abordá-la.
De todo modo, para se decidir sobre como proceder é necessário conhecer. A Téses tem em sua trajetória de pesquisas, uma parte considerável dedicada à arquitetura brasileira anterior ao movimento modernista, e em especial dedicada à arquitetura do período colonial dos séculos XVIII e XIX. Ademais, como cada vez mais as suas pesquisas recentes têm sido voltadas para as linhas definidoras da Tradição da Arquitetura Ocidental, mais conhecimento acerca dessas bases históricas que fundamentaram a arquitetura do patrimônio em questão tem sido edificado.
Como é sabido, não bastar ter determinado conhecimento histórico acumulado e construído. É necessário também ter conhecimento técnico. A Téses pôde experimentar, em algumas obras e projetos que fez, técnicas distintas e assim acumular também esse tipo de conhecimento. Inclusive, uma dessas experiências se deu no projeto de reforma para um sobrado de esquina visando a instalação do seu próprio escritório. Embora não se tratasse de um edifício que tivesse servido como suporte para algum fato histórico de interesse público ou que detivesse um valor expressivo do ponto de vista artístico-arquitetônico, tratava-se de um edifício com uma relação significativa com a rua na qual estava implantado e com técnicas construtivas dignas de atenção. Conscientes de tais valores determináveis encontrados no sobrado, os mesmos foram devidamente mensurados e incorporados às decisões do projeto de reforma e ponderados quanto aos investimentos necessários à execução da obra.
Diante desse contexto de edificações que potencialmente pertencem a um patrimônio arquitetônico, cabe ponderar que a probabilidade da demanda por respostas com qualidade a esse tipo de edificação com algum valor mensurável tende a aumentar. Um dos prováveis motivos para isso é que os custos de demolições, e não só de novas construções, são cada vez mais elevados. Se comparados os custos de determinadas intervenções aos custos de demolições acrescidos dos custos de novas construções, na maior parte das vezes acabam sendo mais econômicas as intervenções. Isso tem pressionando os proprietários ou investidores a ponderar sobre a hipótese imediatista e recorrente de colocar tudo chão abaixo, ou de desfigurar sem medida o que fora feito com algum valor no passado. Outro provável motivo para o aumento de demanda é o fato de que as áreas centrais ou mais antigas das cidades, e que concentram a maior parte desses patrimônios, em geral encontram-se desvalorizadas e, portanto, oferecem por vezes excelentes oportunidades para investimentos capazes de tirar bom proveito do potencial único agregado pelo valor histórico de certas edificações.
Por fim, cabe alertar para o fato de que, em sua maior parte, essas edificações dotadas desse potencial específico encontram-se em estado de descaso, quase abandono, ou de absoluta negligência quanto ao seu valor arquitetônico e ou histórico. Ainda, infelizmente, muitas dessas edificações acabam sendo desfiguradas ao ponto de que elementos de considerável valor que outrora continham se tornam impossível de serem aproveitados ou recuperados, seja, por exemplo, pelo custo elevado de técnicas construtivas passadas, seja pela falta de registros criteriosos desses elementos constitutivos. E, tanto esse descaso é fato, quanto a ignorância acerca do potencial presente nessas edificações é ampla. Se a consciência coletiva acerca do patrimônio fosse diferente disso, muito provavelmente seria pelo valor contido nessas edificações que ocorreria o aumento na tendência de demanda por reformas, e não essencialmente por questões financeiras ou imobiliárias/urbanísticas.
Publicado em 3 de setembro de 2026