A crise da cultura em que vive a nossa civilização, a Civilização Ocidental, tem suas origens, projetos e “planos de ação” já descobertos e bem conhecidos nos dias de hoje. Apesar disso, os impactos que tal crise ainda tem gerado são ampla e profundamente sentidos por todos nós em nosso dia a dia.
Do ponto de vista da Filosofia e do Conhecimento, tal crise baniu ou cerceou inúmeras formas tradicionais de reflexão e, dentre elas, o pensar em cosmovisões. Esse tipo de reflexão teve na modernidade seu sentido mais profundo reprimido “cientificamente” por algumas hordas de intelectuais. A despeito dessa repressão, sabemos que não é só possível como é necessário falar em cosmovisão. Faremos isso aqui de forma absolutamente resumida e sem a pretensão de erigirmos de modo sistemático e organizado uma cosmovisão no seu sentido clássico. Falaremos, portanto, citando apenas algumas filosofias ou princípios filosóficos que, devido a uma série de razões intrínsecas, se interconectam e se complementam.
De modo alinhado com o que reconhecemos e nos propomos por meio do nosso “Manifesto”, sabemos do dever que temos em apresentar os parâmetros intelectuais nos quais a Téses Arquitetura se baliza para elaborar seus projetos e prestar os seus serviços como um todo. E, além de termos tal dever, temos o privilégio de dizer que realizamos nossos projetos tendo como base nossas permanentes pesquisas, o que nos torna duplamente impelidos a apresentarmos nossas referências intelectuais. Para fazermos isso, nada melhor do que começarmos pelas origens dessa construção intelectual.
Nossas reflexões visando a uma cosmovisão não são recentes. Elas tiveram início por volta dos anos 2000, e a primeira síntese em forma de projeto que foi dada para aquelas reflexões primordiais foi o trabalho final de graduação intitulado “Cenotáfio do Homem Moderno”. Um cenotáfio é um monumento funerário sem corpo presente. O que fora projetado trata-se de um cenotáfio diferente do criado por Étienne-Louis Boullée para Isaac Newton (Cenotáfio de Newton), tanto na categoria do espaço arquitetônico, quanto no tipo de ser homenageado por tal espaço. Em relação a outro exemplar de cenotáfio, apesar do espaço arquitetônico ser semelhante por ser aberto como uma praça, difere também do propósito do Memorial do Holocausto projetado por Peter Eisenman em Berlin (Memorial do Holocausto). No monumento funerário sem corpo presente a céu aberto que é o Cenotáfio do Homem Moderno, o morto homenageado não é um ser humano ou um conjunto de seres humanos, é uma ideia de homem que nasceu na Renascença e vive até os dias de hoje.
Naquele trabalho final de graduação começávamos a entender o que, posteriormente, foi se tornando cada vez mais claro e estruturado. Hoje podemos afirmar que nós acreditamos numa visão Teocêntrica e não numa visão Antropocêntrica de mundo. Acreditamos que o pensamento moderno, que o ideal do homem moderno, deve ser abandonado. Desprezamos o hedonismo, o niilismo e outros ideais que o antropocentrismo forjou. Sobretudo, acreditamos que a busca pela Verdade é necessária, e não algo inútil como afirmou o homem moderno, e que a Fé Cristã tem um papel fundamental nesse exercício de corpo, mente e espírito para chegar próximo da Verdade.
Não desprezamos a Ciência. E de forma alguma poderíamos esnobá-la já que dela dependemos diretamente quando consideramos a dimensão técnica do nosso ofício. Acreditamos que a Ciência busca a Verdade tanto quanto a Fé a busca, e que uma e outra percorrem caminhos diferentes, ainda que complementares, para empreenderem suas buscas. Tal como na Antiguidade Clássica fora conciliada a relação entre a Fé e a Razão, entendemos que hoje ela não só deva existir, como deva ser potencializada. E sabemos, e com isso nos guiamos, que a Arte é capaz de expressar essa conciliação.
Durante o processo de construção desse pensamento, percebemos que, principalmente ao longo do século passado até o presente momento, os pilares da Civilização Ocidental, a Religião Cristã, a Filosofia Grega e o Direito Romano vêm sendo intensamente atacados. O progressismo e a engenharia social são exemplos claros dessa “guerra”. Por nossa vez, nós acreditamos em tais pilares, nós acreditamos e nos valemos da capacidade das bases da Civilização Ocidental edificarem uma sociedade mais justa, livre e na qual o ser humano possa se desenvolver em toda a sua natureza e essência.
Passamos, portanto, a olhar mais e mais atentamente para a história da nossa civilização, nós nos reconciliamos profundamente com a Tradição da Arte e da Arquitetura Ocidental (saiba mais sobre essa nossa postura no artigo O Diálogo com a Tradição) e dessa relação nunca mais nos desvencilhamos. Pelo contrário, cada vez mais aprendemos com os ensinamentos que foram sendo construídos ao longo da história do ocidente e que tanto, e de diversas maneiras, hoje nos servem. Assim, diante dessa virada de consciência, passamos, cada vez mais, a valorizar a Erudição,
E quanto mais tomamos contato com a nossa cultura original, mais encontramos no Conservadorismo, e nunca em uma postura conservadora, uma forma organizada de nos posicionarmos diante do mundo, uma forma que de fato nos convenceu. Afinal, segundo o Conservadorismo devemos aprender com a história, com os erros e acertos da humanidade, para enriquecermos nossas decisões e ações no presente, aspectos práticos estes que da filosofia do conservadorismo compartilhamos.
Mas, para enfatizar, não fazemos resistência ao que possa vir a ser novo, ou a eventuais mudanças, o que configuraria uma postura conservadora. Inclusive, na medida em que buscamos o que é único, invariavelmente lidamos com o novo. E, quando lidamos com algo que nos parece novo, não tentamos necessariamente enquadrá-lo em um modelo já pré-existente. Olhamos para o novo com a experiência que acumulamos para fortalecê-lo e potencializá-lo com o que é perene.
Por fim, por entendermos que filosofias são decorrentes de pensamentos e que estes decorrem de escolhas, nos cabe dizer que a Moral Cristã, os ensinamentos de Cristo, sempre foi e sempre estará associada aos nossos pensamentos. São em tais ensinamentos que encontramos e continuaremos a encontrar os modelos para as nossas menores e maiores ações.
Publicado em 3 de setembro de 2026