Em certa medida há sempre um protesto num manifesto. E não é de hoje que se fazem necessários espaços para que aconteçam os devidos protestos. Se, por exemplo, voltarmos à Primeira Renascença, encontraremos relatos de pensadores da arte e da arquitetura que, naquela época e na península itálica, se sentiam incomodados com os trabalhos arquitetônicos e artísticos que viam ao seu redor. Sabemos que a crítica deve primeiramente pertencer aos críticos, mas também sabemos que ela não foge daqueles que pensam com afinco sobre o que fazem. Portanto, não escaparemos aqui de afirmar que não estamos satisfeitos com o que, em termos gerais, vemos de Arquitetura e de Arte pelas nossas cidades.
Por outro lado, um Manifesto também permite expressar aquilo que se enxerga além da crítica, permite apontar os caminhos que se pode escolher percorrer sem se arrepender de avançar. E esse algo que se pode expressar além da crítica é, principalmente, o que entendemos que um manifesto deve compartilhar. Como aqui neste texto não faremos o Manifesto da Téses Arquitetura, aqui visamos esclarecer algo e o faremos por meio de uma crítica sobre os Manifestos possíveis de serem realizados no âmbito da Arquitetura. Mais precisamente o seguinte: por que um Manifesto de um escritório de arquitetura?
Fazer Arquitetura, assim como fazer Arte, é na sua finalidade última transmitir e criar conhecimento, um tipo de conhecimento específico que pode ser chamado de artístico ou de arquitetônico. Não nos cabe aqui discorrer e demonstrar isso, comprovar essa natureza da Arquitetura, diversos autores com a devida competência já o fizeram. Mas, para todos os efeitos, basta observar que as graduações de arquitetura possuem disciplinas como as de “linguagem arquitetônica” que visam ensinar o aluno a expressar ideias e comunicá-las, ou seja, a transmitir um conhecimento. Sobretudo, basta ainda notar que as edificações dotadas de um pensamento arquitetônico são como obras vivas, que “falam” aos que as veem, as percorrem ou as habitam. Elas são em si muito mais capazes do que somente abrigar. Diferentemente das edificações que não transmitem conhecimento e que se equiparam às primeiras formas de abrigo, como as cavernas e as copas de árvores, em que pese separar a relevância da arte rupestre como forma de transformação do espaço ocupado, as edificações que são de fato Arquitetura abrigam mas também transformam quem as habitam.
Na mesma medida, então, em que fazer Arquitetura é transmitir e criar conhecimento, fazer Arquitetura também é participar da criação da Cultura de um determinado contexto social. Fazer Arquitetura é colaborar para com a construção da Cultura e não somente da cultura visual de uma determinada sociedade, mas de outros aspectos da sua cultura como um todo, já que a partir das definições de seu aspecto utilitário ela, por exemplo, influencia hábitos e formas de interação, de trabalho e de morar.
Além disso, tal como se é sabido, e de modo incontestável, a Cultura forma e transforma o Homem e o seu entorno. Então, se a Arquitetura contribui para com a construção da Cultura e esta para com a formação do Homem, naturalmente a Arquitetura também participa desse processo de formação e de transformação dos Homens e das Sociedades, o que não deve de modo algum ser negado. Portanto, uma vez consciente de que se constrói parte da Cultura por meio da Arquitetura, tem-se basicamente duas direções opostas a se tomar: ou se decide declarar o que se pretende construir, o como se deseja contribuir para com a construção daquela parte da Cultura, ou se decide omitir seus intuitos. Entretanto, cabe ressaltar que, independentemente da decisão tomada, é intrínseco ao fazer uma arte propagar os seus intuitos, estejam eles declarados ou omitidos.
Para evitar eventuais confusões acerca do que tratamos aqui, devemos excluir do “fazer Arquitetura” as formas inconscientes de se fazê-la. A propósito disso, o que mais vemos ao nosso redor são reproduções de imagens arquitetônicas, criadas por terceiros, sob o rótulo de “arquitetura”. Imagens essas que, se a maioria de seus reprodutores conhecessem suas consequências culturais e seus significados, provavelmente jamais as reproduziriam em seus projetos. Dessa forma, entendemos que só é Arquitetura aquilo que se faz de modo consciente quanto aos seus propósitos e às suas decorrentes e mais diversas implicações, inclusive as culturais. Portanto, fazer Arquitetura é um ato de desígnio, enquanto fazer o projeto de uma edificação sem a consciência do que se faz não é fazer Arquitetura.
Assim, já que não se pode negar que fazer Arquitetura é comunicar algo que forma e transforma o ser humano, é justo para com quem encomenda uma obra de arquitetura que lhe sejam acessíveis os intuitos de quem a criará. E o fato de a Arquitetura ser uma arte utilitária, habitável e imóvel, torna ainda mais necessária a transparência das intenções de quem a cria. Afinal, a Arquitetura não é como outras artes que podem ser escondidas ou guardadas dentro um depósito ou um armário para não se ter de encará-la por um determinado tempo. A Arquitetura imobiliza um grande capital daqueles que a encomendam e que naturalmente não esperam se frustrar quanto ao seu investimento, pois, dentre as demais artes, ela é a mais difícil de ser ignorada ou esquecida.
Por tais razões é que entendemos que ao se intentar fazer Arquitetura ou se decide manifestar explicitamente seus propósitos, e dar a conhecer os seus valores e os seus pensamentos, como por exemplo, por meio da publicação de um Manifesto, ou se adota uma postura cínica e omissa para com o seu dever e compromisso com os seus clientes. Qualquer outra postura diferente dessas duas somente pode se resumir ao não fazer Arquitetura, ao produzir qualquer edificação desprovida de um conhecimento artístico a ser estabelecido e comunicado, quer seja pela mera reprodução de padrões pré-estabelecidos, quer seja pela ausência absoluta de um pensamento arquitetônico. Mais além, talvez seja possível resumir as posturas quanto à transparência acerca dos seus intuitos quando se faz Arquitetura em dois grupos opostos, de um lado a postura responsável e ética daqueles que tem o que dizer e que o dizem, e do lado oposto todas as demais posturas marcadas pela falta de ética, o cinismo e a omissão daqueles que têm o que dizer mas não o dizem, e também, nesse mesmo flanco, as posturas vazias, que geram um vácuo, daqueles que ou não tem o que falar ou não sabem o que dizer.
Em conclusão, considerando que o fazer Arquitetura contribui para a construção das Sociedades e dos Seres Humanos, considerando que se possa ter o que dizer e que não se está disposto a omitir seus intuitos, a publicação de um Manifesto para um negócio de Arquitetura é um meio ético que possibilita àqueles que contratam os serviços, de antemão, contar com a transparência e se identificar verdadeiramente com os pensamentos, valores e propósitos indiretamente contratados.
Publicado em 3 de setembro de 2026