Ouvimos muitos discursos, entre os profissionais da arquitetura, acerca da atemporalidade. Alguns arquitetos bradam, se vangloriam, dizendo que fazem uma arquitetura atemporal ou que suas obras são atemporais. Outros dizem que usam materiais atemporais nos seus projetos e, com isso, buscam se diferenciar dos profissionais que vivem das novidades das feiras de revestimentos e materiais para construção e que se valem do impacto gerado pelos lançamentos para valorizarem e produzirem seus trabalhos. Nos dois casos, tais profissionais desejam distinguir seus trabalhos ou das "tendências estilísticas" da arquitetura contemporânea ou dos modismos da indústria da construção civil, ou de ambas as coisas.

Há um certo raciocínio lógico em contrapor à frivolidade do modismo a perenidade do atemporal. E esse raciocínio é admissível principalmente pelo fato de que é merecida a crítica aos modismos que perpassam as vertentes recentes da arquitetura e a indústria construção civil como um todo. Sendo a obra de Arquitetura algo que deve ser perene, e sendo ela algo que imobiliza muitos recursos, pensá-la de forma volátil é absolutamente ilógico. Mas existem materiais atemporais? E seria de fato possível falarmos em uma obra atemporal? Para ambas as perguntas a resposta é a mesma: não.

Um material é produzido num determinado tempo, com determinadas técnicas concernentes aos processos produtivos de tal tempo, é comercializado por razões econômicas possíveis naquele tempo e empregado na obra com técnicas, normas e procedimentos que são vigentes naquele mesmo tempo. Tanto que, em obras de restauro, as técnicas construtivas de um tempo passado são, às vezes, até mesmo impossíveis de serem reproduzidas.

Uma obra fruto de um projeto de arquitetura, por sua vez, segue os mesmos princípios dessas questões relativas aos materiais e vai além, pois dialoga com as pessoas, os costumes, as culturas, as expectativas que somente de fato fazem sentido na época para a qual é concebida e na época na qual é construída. A obra de arquitetura em si pertence ao tempo na qual é realizada e somente nele cumpre seu sentido pleno. Tanto que, quando se decide ocupar uma edificação de um tempo distante, são por vezes necessárias significativas intervenções para adequá-la ao tempo vigente (veja o artigo sobre este tema: Reformas em edifícios antigos).

A deturpação do sentido de perenidade, sentido este inerente à Arquitetura, estimulada pela indústria da construção civil, de fato provoca as reflexões críticas acerca daquilo que eventualmente possa evitar tal deturpação. Mas, no processo das reflexões possíveis de conter esse processo depreciativo da natureza da arquitetura, não se pode estabelecer a atemporalidade como o oposto de fugacidade ou efemeridade. Aquilo que é atemporal é o que não pode pertencer ao Tempo e não apenas a um tempo específico, algo que, obviamente, não passa ou acaba. E a Arquitetura em si, por mais perene e duradoura que possa e deva ser, é construída com determinados materiais, em determinado tempo, com determinados propósitos e para determinadas pessoas inseridas em determinados contextos.

Indo um pouco mais afundo nessa questão, pode-se encontrar algo em comum entre a postura daqueles que aderem aos modismos, seja os das vertentes da arquitetura contemporânea, seja os das feiras e da indústria da construção civil, e a postura daqueles que evitam esses modismos apoiando-se na ideia falaciosa de atemporalidade: a falta do que dizer. Tornou-se extremamente raro encontrar uma obra de arquitetura capaz de comunicar algo que seja autêntico e que contribua para com a construção de um sentido diante da realidade. Assim, não é gratuito o fato de que ao se deparar com esse denominador comum, que é a ausência de um discurso autêntico, encontra-se também um problema muito mais abrangente que engloba outras áreas de atuação e, inclusive, as sociedades como um todo nos dias de hoje: as pessoas deixaram há muito tempo de serem educadas para pensar criticamente e com embasamento. De uma maneira geral, a imagem do ser contemporâneo pode ser representada pelo ato de se clicar numa tela repleta de coisas pré-escolhidas, programadas e induzidas que simulam uma "pseudo-escolha" num "mundo" cada vez mais distante do real. Não é por acaso que nos dias atuais cada vez mais o ser encontra-se vazio, sem propósito ou sentido.

Por outro lado, na perspectiva menos desesperançosa do problema, apesar de ser uma ilusão confundir a característica que a Arquitetura realmente possui de ser perene com a característica de ser atemporal, cabe notar que há nessa ilusão uma atração por vezes inconsciente para algo maior que a própria Arquitetura e que justamente consiste no atemporal. É natural ao ser humano buscar aquilo que transcende a realidade temporal. A Arquitetura em si nunca será atemporal, mas acreditamos que seja possível à sua natureza artística, e que seja inclusive necessário, dialogar com o que é Atemporal, remeter ao Atemporal, mirá-lo. E fazer isso é o mesmo que conversar arquitetonicamente com o Eterno, com a Verdade, com aquilo que é Vivo e que vive além da morte.